quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Os sapos da caatinga brasileira que ficam enterrados na areia sem comer por mais de 2 anos

Sapo da espécie Pleurodema diploslister após fenômeno chamado estivação, que ocorre com anfíbios em desertos e onde água é escassa — Foto: Carlos Jared/BBC
No entardecer de 17 de fevereiro de 1992, no município de Angicos, na caatinga do Rio Grande do Norte, depois de uma chuva fraca durante o dia, o casal de pesquisadores do Instituto Butantan Carlos Jared e Marta Maria Antoniazzi presenciou um fato bizarro: sapos começaram a brotar aos borbotões do chão arenoso.
Saltando a esmo, davam a impressão de estar à procura de poças d'água para se alimentar e acasalar.
Começava ali um longo trabalho de pesquisa dos dois, que se estende há quase três décadas, para entender um comportamento animal pouco conhecido - pelo menos do público leigo: a estivação. Trata-se de um fenômeno semelhante à conhecida hibernação, só que causado pelo calor e a seca em vez do frio.
'Esses animais entram em um longo sono, quando as condições climáticas se tornam muito secas e quentes', diz Jared — Foto: Marta Antoniazzi/BBC
Assim como os animais que hibernam - dos quais os ursos são os mais famosos -, os que estivam reduzem suas atividades metabólicas por um longo período, podendo chegar a mais de dois anos em algumas espécies.
"É um fenômeno que ocorre com vários anfíbios que vivem em desertos ou em outros ambientes com escassez de água, ao menos temporária", explica Jared.
"Semelhante à hibernação, induzida pelo frio excessivo, pode-se definir a estivação como o estado de letargia em que esses animais entram em um longo sono, quando as condições climáticas se tornam muito secas e quentes."
Levados por Jared a também estudar os anfíbios da caatinga que estivam, os fisiologistas Carlos Navas, da Universidade de São Paulo (USP), e José Eduardo Carvalho, do campus de Diadema da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), começaram seu trabalho na região em 2007.
"Nosso objetivo central era investigar quais mecanismos fisiológicos permitiam aos sapos daquela região ocuparem este ambiente aparentemente tão inóspito para este grupo de vertebrados", conta Carvalho.
G1/RN