quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Presos, ex-ministros Henrique Alves e Geddel Vieira expõem abandono e depressão

BLOG DO BG
Os dois já foram políticos poderosos do PMDB e estavam entre os aliados mais próximos do presidente da República, Michel Temer, mas as investigações da Operação Lava-Jato mudaram tudo. Eles foram presos e, agora, o ânimo não é mais o mesmo. O ex-ministro Geddel Vieira Lima reclamou do abandono dos amigos, enquanto o advogado do também ex-ministro Henrique Alves relatou que ele está deprimido.
— Amigos de longa data me lançaram no vale dos leprosos — afirmou Geddel na terça-feira, em depoimento na Justiça Federal de Brasília.
No mesmo dia, o juiz da 14ª Vara Federal de Natal, Francisco Eduardo Guimarães, aceitou pedido da defesa de Alves, que está detido desde junho de 2017, e converteu a prisão preventiva dele em prisão domiciliar porque, entre outros motivos, o ex-presidente da Câmara e ex-ministro está em depressão. O ex-ministro, porém, continuará atrás das grades porque há outro mandado contra ele decretado pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília.
— Henrique Alves está padecendo de alguns males, está em depressão e tomando diversos remédios, além de ter uma idade mais avançada. É plausível deferir a prisão domiciliar considerando que pode ser aplicada como medida cautelar a partir desse momento. Ele também fez o compromisso de que permanecerá fora da atuação política — disse o juiz de Natal ao GLOBO.
Preso desde setembro do ano passado, Geddel é acusado de ter tentado impedir que Lúcio Bolonha Funaro, apontado como operador de políticos do PMDB em esquemas de corrupção, firmasse um acordo de delação. Ele nega. Funaro chegou a dizer que sentia medo do primeiro escalão do governo Temer, do qual Geddel fez parte. Mas o ex-ministro citou uma mensagem do delator, segundo a qual ele teria dito: “diga ao Geddel: se não resolver isso eu vou f… ele com o Michel”.
— Fico eu a perguntar: como alguém que tinha o poder de me f… com Michel poderia ter algum receio ou o constrangimento de que eu pudesse, junto a Michel, lhe causar algum tipo de dano? — questionou Geddel.
O ex-ministro também negou ter oferecido vantagem a Funaro, que foi preso em julho de 2016, ou à sua mulher, Raquel Pitta. Em julho do ano seguinte, ao ser preso pela primeira vez e ao responder questionamento do procurador da República Anselmo Lopes, Geddel afirmou que falou mais de dez vezes com Raquel ao longo de um ano. Na terça-feira, ele disse não se recordar exatamente de quantos telefonemas foram feitos. Geddel disse ainda que nunca tratou de negócios com o operador e que nem se lembra de como o conheceu.
— Essa memória fantástica só vejo em elefante ou delator — ironizou Geddel Vieira Lima.
Os investigadores do caso afirmam que, entre maio e junho de 2017, Geddel enviou mensagens à mulher de Funaro. Ela entregou cópias da tela do aplicativo. Nas mensagens, Geddel é identificado como “Carainho”. Na avaliação do Ministério Público Federal (MPF), os “elementos deixam claro que Geddel continua agindo para obstruir a apuração dos crimes e ainda reforçam o perfil de alguém que reitera na prática criminosa”.
No caso de Henrique Alves, a decisão do juiz de Natal de conceder a prisão domiciliar é contrária ao parecer do MPF. O procurador federal Fernando Rocha, destacou que, apenas com uma “análise conjunta, se pode fazer um juízo definitivo dos réus”. O procurador Rodrigo Telles também destacou a “potencialidade da continuidade da prática de obtenção indevida de recursos”.
Por outro lado, o juiz negou um pedido da defesa do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para revogar sua prisão preventiva.
— É uma pessoa que, se posta em liberdade, terá facilidade de articular com as mesmas pessoas que teriam praticado delitos que a denúncia informa. Entendo que ele deve permanecer fora da sociedade — afirmou o juiz.
PADILHA FALA
No processo de Geddel, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, também prestou depoimento na terça-feira. Ele negou ter procurado Funaro por meio de seu advogado. Rechaçou também ter pedido que Geddel sondasse o operador sobre sua possível delação. O chefe da Casa Civil disse não ter conversado sobre uma possível delação nem com Geddel, nem com Temer. Em sua colaboração premiada, o operador disse que advogados ligados a Temer, Padilha, Cunha e ao empresário Joesley Batista, da JBS, monitoraram desde 2016 a possibilidade de que ele viesse a celebrar um acordo de delação.
(*Especial para O GLOBO)